Indicações do PMDB para ministérios dominam aniversário de Cunha

Por Paulo Gama

A versão oficial de Eduardo Cunha (PMDB-RJ) de que não se importa com as indicações de seu partido para o ministério de Dilma Rousseff não ecoou entre os convidados de sua festa de aniversário de 57 anos.

Reunidos em um salão reservado de um restaurante no Lago Sul, em Brasília, os cerca de 50 deputados que pagaram R$ 100 para dar parabéns ao presidente da Câmara só tinham um assunto: quem serão os dois nomeados pela bancada peemedebista para a Esplanada de Dilma –as suspeitas sobre Cunha na Operação Lava Jato ficaram fora do evento.

Não por acaso a mesa que mais chamou a atenção foi a que reuniu lado a lado os quatro peemedebistas mais cotados para os dois postos: Manoel Junior (PB) e Marcelo Castro (PI), indicados para a Saúde, e Celso Pansera (RJ) e José Priante (PA), sugeridos para o natimorto Ministério da Infraestrutura, e que podem acabar comandando os Portos.

“Vamos organizar uma sabatina entre eles”, brincou Hugo Motta (PB), o presidente da CPI da Petrobras, sentado à mesma mesa, no fundo do salão.

Aos convidados que perguntavam, Cunha desdenhava: “Dilma faça o que quiser com as sete pastas”.

Ainda no início do evento, o ministeriável Manoel Junior tomou o microfone para cantar uma música. Escolheu “Espumas ao vento”, popularizada por Fagner. Ao final da primeira canção –ele ainda cantaria mais cinco ou seis ao longo da festa– desejou “saúde” ao presidente da Câmara. “Saúde, muita saúde, meu irmão.”

Os colegas não perdoaram o rival de Manoel. “Sua vez de cantar, Marcelo, vamos ver quem é melhor!”, gritou André Fufuca (PEN-MA). O piauiense ficou longe do microfone –tampouco conversou com o adversário na disputa pelo Ministério da Saúde.

Cunha, que ouviu a primeira canção e os votos de saúde sentado ao lado da mulher, Cláudia, lembrou, rindo: “Na minha campanha para presidente da Câmara, o Manoel também cantava nos eventos nos Estados… A gente perdia voto pra caramba!”

Quem esteve nas duas festas –a desta terça e a que celebrou a vitória de Cunha no início do ano– diz que o clima foi diferente. Desta vez Cunha circulou pouco entre os convidados. Passou a maior parte do tempo sentado junto da família na ponta da mesa principal. Na cadeira ao lado revezaram-se deputados como o líder da bancada, Leonardo Picciani (RJ), e Carlos Marun (MS), que organizou o evento.

De ministros, passaram por lá Henrique Alves (Turismo) e Luís Inácio Adams (AGU). “Estava em outro evento e só vim dar um abraço. Tenho testemunhas oculares”, brincou o advogado-geral da União, que tem como principal objetivo impedir que a rejeição das contas de Dilma no TCU fortaleça o pedido de impeachment na Câmara, que Cunha tem a prerrogativa de analisar.

Em seu breve discurso, “à capela”, o peemedebista falou do “carinho de conviver com todos”. “Que a gente continue sempre assim, junto, brigando, lutando, compartilhando, sofrendo e rindo. Juntos somos mais fortes.”

A fala arrancou aplausos, mas deputados mais afoitos esperavam uma menção –ainda que sutil– à possibilidade de afastamento de Dilma. “Cadê o grand finale?”, perguntou baixinho André Moura (PSC-SE).

A festa reuniu deputados de PMDB, DEM, Solidariedade, PSC, PEN, PHS, PP, PR e até do PSDB. Aliados de primeira hora, como Paulinho da Força (Solidariedade) e Mendonça Filho (DEM), no entanto, não apareceram.

No cardápio, arroz com camarões e medalhão ao molho madeira envolto em bacon. Para beber –por conta de cada deputado– foram pedidos vinhos Camigliano Rosso Di Montalcino (R$ 146) e Casa Valduga Premium (R$ 81), além de cervejas de marcas populares.

De presente, o peemedebista recebeu pelo menos uma garrafa de vinho, de Alexandre Baldy (PSDB-GO), e uma caixa de charutos, ofertada por Moura. “Se não for do fornecedor que ele gosta, ele manda devolver”, confidenciou um aliado.

Já depois da meia-noite, pouco após Cunha ter partido, Marun percorria o salão anunciando um deficit de R$ 1.800 na conta –apesar de ter cobrado antecipado os R$ 100 de entrada. Passou o chapéu entre colegas e conseguiu mais R$ 1.000. Assumiu os R$ 800 de prejuízo sem reclamar.